DISPEPSIA FUNCIONAL ( Dispepsia sem úlcera ):
Cerca de 20% dos adultos, no mundo ocidental, têm Dispepsia
Funcional.
A
maior parte das pessoas com queixas do estômago, submetidas a endoscopia alta em
regime ambulatório, não têm nenhuma alteração endoscópica que justifique
as suas queixas, o que sugere a possibilidade de terem Dispepsia Funcional. Na
Dispepsia Funcional tal como nas outras doenças funcionais não existe uma
alteração estrutural ou bioquímica conhecida.
Os peritos reunidos em Roma em 1990, em 1999 e, novamente em 2006, propuseram
para a Dispepsia Funcional a seguinte definição: Dor e/ou desconforto persistente ou recorrente localizada na parte superior do abdómen, sem relação com os exercícios físicos, sensação de enfartamento depois das refeições, saciedade precoce e sensação de queimadura localizada no epigástro.
Na última reunião de Roma em 2006 os peritos subdividiram a Dispepsia Funcional em 2 síndromes:
1- Síndrome do desconforto pós-prandial: sensação de dor, desconforto, enfartamento depois das refeições e saciedade precoce.
2- Síndrome da dor epigástrica: dor localizada no epigastro, sem outros sintomas, intermitente, sem outras localizações e que não alivia com defecação.
Só
muito
recentemente, se chamou a atenção para a Dispepsia Funcional, que é ainda desconhecida do grande público.
Os médicos de língua inglesa chamam à Dispepsia Funcional, Dispepsia-sem-Úlcera. A designação
Dispepsia Funcional utilizada
na Europa, pese embora o sentido dúbio da palavra funcional parece ser mais
correcto. Também se utiliza a designação de Dispepsia Idiopática para
realçar que a causa é desconhecida. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
atribui à palavra funcional o seguinte sentido médico: "que afecta funções
fisiológicas ou psicológicas mas não a estrutura orgânica." "sem causa orgânica
perceptível (diz-se de distúrbios funcionais)".
Qual a causa ( ou causas ) da dispepsia funcional?:
A causa (ou causas) da Dispepsia Funcional é desconhecida,
mas sabemos que é frequente a partir dos 20 anos de idade, sobretudo no sexo
feminino, atingindo mais de 20% da população do mundo ocidental. É uma
doença crónica, recorrente. As queixas dispépticas podem ser contínuas mas geralmente
são intermitentes e aparecem exclusivamente durante o dia. Durante a noite raramente
incomodam.
Existe uma crença arreigada, que se encontra ainda em muitos livros, de que
há uma relação directa entre factores psicossociais e a dispepsia funcional
mas não existem estudos que o confirmem.
Embora se encontrem com frequência,
factores que induzem o stress, precedendo os sintomas dispépticos, assim como
ansiedade e depressão, os estudos
efectuados, não têm mostrado diferenças significativas quando se comparam as pessoas
com Dispepsia Funcional com a
população em geral.
Discute-se se haverá alguma relação entre o Helicobacter pylori e a Dispepsia Funcional. A maior parte dos indivíduos com Dispepsia Funcional têm gastrite crónica causada pelo Helicobacter pylori mas, as queixas geralmente não desaparecem depois de se fazer a erradicação do H. pylori. Apenas 1 em cada 17 (menos 6%) destes doentes melhoram com a erradicação do Helicobacter. Mais de 94% continuam com queixas depois da erradicação.
Quais as queixas do doente com dispepsia funcional?:
Com frequência os sintomas da Dispepsia Funcional ( dor do
estômago, desconforto, enfartamento, náuseas, vómitos, distensão ) estão
associados aos sintomas do Síndrome do Intestino Irritável (
dor abdominal,
obstipação /
diarreia, distensão abdominal,
flatulência, sensação de
defecação incompleta ) o que leva muitos autores a considerar os dois
síndromes como uma única entidade com provável etiologia e patogenia
comum.
É também frequente a sobreposição das queixas da
Dispepsia Funcional com as queixas da Doença do Refluxo
Gastro-esofágico ( DRGE ) e, com a Úlcera do
Duodeno e do Estômago.
Os sintomas dispépticos, muitas vezes continuam depois
da cura da úlcera porque existe uma Dispepsia Funcional.
Como se faz o diagnóstico da Dispepsia Funcional?:
Nas Doenças Funcionais nenhuma estrutura orgânica está alterada por isso nenhuma alteração é encontrada nos exames hematológicos, bioquímicos,
endoscópicos ou de imagem ( ecografia, radiologia, TAC ) que o
médico possa mandar executar. Na Dispepsia Funcional não
existe nenhuma alteração, nem estrutural, nem bioquímica. A endoscopia alta é o exame
que o médico manda realizar com mais frequência, para excluir uma úlcera do estômago ou do
duodeno e, nos indivíduos
com mais de 45 anos para excluir também o cancro do estômago. Se achar
necessário o médico manda executar uma ecografia abdominal ou outros exames,
para excluir outra patologia: litíase da vesícula, pancreatite etc. etc.
Como se trata a Dispepsia Funcional ?:
O nosso médico pode ajudar-nos muito, explicando-nos a
benignidade da doença, assim como o seu carácter crónico, recorrente, intermitente.
Poderá pedir a realização de alguns exames:
endoscopia alta, análises ao sangue, ecografia para nos mostrar que os
exames são todos normais, que não existe nenhuma alteração orgânica. Por vezes o
nosso médico não pede qualquer exame sobretudo se formos jovens e os sintomas forem francamente
sugestivos do diagnóstico.
Quando
as queixas são desencadeadas por este ou aquele alimento e, é muito frequente
isso acontecer, o nosso médico recomenda-nos que durante algum tempo retiremos esse
alimento ou esses alimentos da dieta. O beneficio desta atitude é com frequência
temporário e de pouco valor.
Sempre que possível, devemos fazer uma
alimentação variada. Uma vida calma, com refeições agradáveis, sem grandes quantidades de alimento,
ingeridos sem pressa pode
ajudar a aliviar os sintomas.
O
prognóstico da Dispepsia Funcional é muito bom, embora a doença possa ser incomodativa.
Se as queixas são muito ligeiras, o nosso médico, muitas vezes, não nos aconselha nenhum medicamento.
Por vezes o nosso médico recomenda-nos tomar durante as crises algum
medicamentoanti-secretor ou procinético. Como a
doença é geralmente crónica, recorrente, é necessário fazer o tratamento
quando os sintomas reaparecerem.
A Dispepsia Funcional é desde a primeira reunião de peritos em Roma, em 1990, uma entidade individualizada mas é necessária uma melhor compreensão dos mecanismos psicossociais, das alterações motoras e das anomalias das sensações viscerais para que possa haver um melhor conhecimento desta entidade e consequentes avanços na sua terapêutica.
Apesar da sua benignidade, os sintomas da Dispepsia
Funcional são com frequência causa de sofrimento, quer pelo seu carácter
crónico, quer pela pouca eficácia do tratamento, o que leva, por vezes, quem que sofre, a andar de médico em médico e a recorrer a todas as medicinas
alternativas, à procura duma cura que ainda ninguém conhece, ou dum alívio que
nem sempre se consegue. Além da má qualidade de vida que os sintomas podem
proporcionar a angustia, pode infelizmente aumentar, à medida que vão aparecendo
diagnósticos sem qualquer senso ( duodenite, gastrite, gastrite nervosa, ácidos, úlcera nervosa, vesícula
preguiçosa... e disparates ainda maiores ) e os exames repetidos em catadupa: as análises ao sangue,
as endoscopias, as radiografias, as ecografias que por vezes mostram alterações sem
significado clínico, mas que quem sofre sobrevaloriza, porque já desconfia de tudo e de
todos.
Apesar da sua
benignidade, a Dispepsia Funcional pode ter desagradáveis consequências sociais
e económicas ( custo dos medicamentos, número de consultas médicas, número
de exames, ausência ao trabalho ) que, em parte, o paciente bem avisado e
informado do carácter benigno da sua doença poderá evitar ou
minimizar. O nosso médico, nesta como noutras circunstâncias, deve ser o
nosso orientador.
Assuntos relacionados:
Úlcera do estômago
Úlcera do duodeno
Cancro do estômago
Doenças Funcionais
Dispepsia funcional na Internet:
What
is Indigestion? da Digestive
Disorders Foudation
Doenças Funcionais na Internet: INTERNATIONAL
FOUNDATION FOR FUNCTIONAL GASTROINTESTINAL DISORDERS
Na página da SPED o Prof. Diniz Freitas explica o que é a DISPEPSIA e DISPEPSIA FUNCIONAL
Carlos Carvalheira
c.carvalheira@sapo.pt