DOENÇA DO REFLUXO GÁSTRO-ESOFÁGICO - DRGE
esofagite péptica,
estenose péptica, úlcera do esófago e esófago de Barrett.
Quase todos sentimos ocasionalmente, geralmente depois duma
refeição abundante ou com
muita
gordura, o refluxo do ácido do estômago para o
esófago o que nos dá uma sensação de queimadura ( no Brasil dizem queimação ), de ardor, de azedo, que pode ir do estômago
até à garganta. Esse refluxo esporádico, ocasional, do conteúdo do
estômago ( ácido clorídrico, pepsina, bílis etc. ) é considerado normal,
mas pode tornar-se incomodativo, anormal, transformar-se numa doença e necessitar de
tratamento. A Doença do Refluxo Gastro-esofágico ( DRGE ) é a afecção mais frequente
do esófago, e uma das doenças mais frequentes do Aparelho Digestivo, embora só a tenhamos
conhecido melhor nos últimos anos.
Como se manifesta o refluxo ?:
O
sintoma mais frequente é a sensação de queimadura por detrás do externo (a palavra pirose que os
médicos utilizam, para traduzir essa sensação, deriva do grego pyrosis
que significa acção de queimar). É este significado que devemos dar à palavra
azia. Assim o entende também o Dicionário Houaiss de Sinónimos: azia, acidez, pirose, queimação.
A regurgitação do conteúdo do estômago para o esófago é quase sempre
uma sensação evidente, que acompanha a sensação de queimadura.
A Doença do Refluxo pode causar outros sintomas
para além da sensação de queimadura e da regurgitação. Pode ser causa de dor no epigastro ou no tórax. A dor
no tórax pode pôr problemas de diagnóstico diferencial com a dor torácica de
origem cardíaca ou de outra origem: óssea, articular, muscular etc. Se tiver
dúvidas, o nosso médico, pergunta-nos pormenores sobre o aparecimento da dor e
recorre a exames complementares ( Rx do tórax, Electrocardiograma etc. ) para chegar a um diagnóstico certo.
Com alguma frequência a DRGE manifesta-se com sintomas da orofaringe ou sintomas respiratórios: ardor, sensação desagradável
na garganta, rouquidão, tosse, asma.
Em alguns casos, se houver aperto do esófago, pode
haver dificuldade na passagem dos alimentos para o estômago ( disfagia ) ou
essa passagem ser dolorosa ( odinofagia ).
Porque é que o refluxo gastro-esofágico acontece ?:
O
esófago é um tubo com cerca de 20 cm que leva os alimentos até ao
estômago. Nos 2 centímetros finais do esófago existe uma zona de maior pressão
que constitui o Esfíncter Esofágico Inferior ( EEI ). O EEI depois da
deglutição dos alimentos abre-se para os deixar passar para o estômago mas contrai-se
de seguida para impedir que o conteúdo do estômago reflua do estômago para o esófago.
No entanto, esse esfíncter ( EEI ) nem sempre funciona bem, nem sempre faz uma tensão suficiente e deixa que o conteúdo do estômago reflua, retroceda, para o esófago. Chama-se a isso refluxo gastro-esofágico.
As
refeições volumosas aumentam a pressão dentro do estômago e facilitam o
refluxo mas outros factores podem contribuir para diminuir a tensão do EEI e
facilitar o refluxo:
Nicotina - qualquer tabaco
Alimentos com gordura
Cafeína
Gravidez
Hérnia do hiato ( é controversa a importância da hérnia na DRGE. A hérnia do hiato observa-se na maior parte das pessoas depois de 50 anos de idade e não causa qualquer sintoma, há estudos que provam que nalguns casos, a hérnia do hiato, agrava os sintomas da DRGE.
Alguns medicamentos que diminuem a pressão do EEI ( esfíncter esofágico inferior) ou diminuem o movimentos propulsivos. É muito usada a associação dum ansiolítico, com o antiespasmódico clidínio, comercializada com o nome Librax e que pode agravar o refluxo.
A doença do refluxo gastro-esofágico é uma doença grave ?:
Não. É uma doença muito frequente - atinge 30% ou mais, da população do mundo ocidental - e pode ser muito incomodativa, pode ser causa de má qualidade de vida, mas raramente, muito raramente, tem complicações graves.
Como se faz o diagnóstico do refluxo ?:
Na maior parte dos casos os sintomas, são o suficiente, para fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento. O nosso médico pode, no entanto, mandar fazer alguns exames para nos sossegar, para nos garantir que não há nenhum tumor e para se certificar se há ou não lesões no esófago causadas pelo refluxo:
A endoscopia alta é o exame mais utilizado e, permite observar o esófago, o estômago e o duodeno. Em cerca de 50% dos casos a observação endoscópica não mostra nenhuma alteração apesar de haver Doença do Refluxo. A lesão que o endoscopista observa com maior frequência são as erosões na zona final do esófago. As lesões mais graves, estenose ( aperto ) do esófago, úlcera do esófago e esófago de Barrett, são pouco frequentes.
A manometria e a pHmetria esofágica são testes que permitem medir a pressão e o pH na extremidade do esófago mas o médico raramente necessita de recorrer a estes testes..
Complicações do refluxo gastro-esofágico:
Em cerca de 50% dos casos a endoscopia não mostra nenhuma alteração. É a chamada Doença do Refluxo Endoscopicamente Negativa ( DREN ) ou Não Erosiva. ( DRNE )
As complicações graves são felizmente raras. A DRGE é causa frequente de má qualidade de vida mas, a mortalidade, é praticamente nula.
As erosões
do esófago, que
constituem a esofagite péptica, podem ser mais ou menos exuberantes e podem desaparecer com o tratamento.
O sangramento destas erosões é pouco frequente mas, pode dar origem a hemorragia aparente ou a
pequenas perdas de sangue que causam anemia.
O aperto ou estenose
do esófago é uma complicação rara
que pode exigir a dilatação do esófago para alargar o diâmetro. O aperto do
esófago leva a que os alimentos, sobretudo sólidos, tenham dificuldade em
passar para o estômago (
disfagia ). Os alimentos ficam empancados ou empachados no
esófago e não chegam ao estômago.
O esófago de Barrett é outra complicação rara da DRGE. A mucosa da parte final do esófago é substituída por mucosa com características histológicas semelhantes à mucosa do estômago e do intestino. É uma complicação rara que exige vigilância com endoscopias e biopsias periódicas porque o esófago de Barrett pode evoluir para tumor do esófago.
Complicações da orofaringe são frequentes e são motivo de frequentes consultas ao otorrinolaringologista: ardor, rouquidão.
Complicações pulmonares são possíveis: asma, bronquite, pneumonia.
Tratamento:
Há atitudes simples que diminuem o refluxo e podem resolver os casos mais simples:
Não fazer refeições muito volumosas nem com muita gordura
Não nos deitarmos logo após a refeição
Se há excesso de peso emagrecer
Não fumar - o tabaco diminui a pressão do EEI facilitando o refluxo
Beber álcool e café moderadamente
Dormir numa cama com a cabeceira mais alta - medida pouco prática, desagradável e pouco eficaz.
Tomar um
antiácido em SOS
(
são medicamentos de venda livre e podem adquirir-se nos supermercados em
vários países, USA, UK, em Portugal nas Farmácias. ). Se já
estamos com azia instalada, deixar dissolver um comprimido de Maalox na
boca pode ser o suficiente para obter alívio durante algum tempo. Alguns
antiácidos contêm cálcio ou/e sódio e devem ser evitados - infelizmente são
os mais conhecidos e mais utilizados.
Tratamento farmacológico:
A Doença do Refluxo Gastro-esofágico pode manifestar-se por sintomas muito
ligeiros que aliviam com um anti-ácido ou mesmo com modificações do estilo de
vida e dietéticas como atrás ficou escrito.
Com frequência, para se obter alívio é necessário um tratamento mais eficaz e necessitamos da orientação do nosso médico. O nosso médico ensina-nos a manejar medicamentos inibidores do ácido clorídrico,
muito eficazes, que impedem completamente ou quase completamente
o aparecimento de sintomas. Devemos tomar os inibidores do ácido clorídrico ou diariamente ou em dias alternados
ou em SOS ( on demand ) quando tivermos queixas. Cada um de nós encontra a
melhor maneira de não ter sintomas e ter boa qualidade de vida. A muitas pessoas basta-lhes tomar um comprimido antes das refeições que já sabem que lhes vão causar azia.
Mas o nosso médico ensina-nos também que estes inibidores do ácido clorídrico, tão úteis para impedir o aparecimento da azia de nada servem quando já estamos com azia. Neste caso devemos mastigar um antiácido. Trazer um antiácido na mala de mão é absolutamente necessário para quem quer obter alívio deste sintoma desagradáve.
A DRGE é uma
doença crónica, recorrente.
Não conhecemos tratamento que cure definitivamente a doença.
Quando paramos o tratamento podemos estar tempos longos sem sintomas mas,
com frequência, algum tempo depois reaparecerem e então temos que retomar o
tratamento.
Como já atrás ficou dito em cerca de 50% dos casos de DRGE a endoscopia é normal.
Esta variante da doença chama-se doença do refluxo não erosiva, DRNE, e deve ser tratada como a DRGE
erosiva.
Tratamento cirúrgico:
O tratamento cirúrgico anti-refluxo utiliza-se pouco. A
moderna técnica laparoscópica pode ser considerada nos indivíduos jovens.
Os casos de DRGE que respondem mal ao tratamento médico
também respondem mal ao tratamento cirúrgico. Este argumento, da má
resposta ao tratamento médico, para justificar o tratamento cirúrgico é muitas
vezes invocado mas é um argumento falso.
Tratamento endoscópico:
O tratamento endoscópico da DRGE está ainda a dar os primeiros passos. Os primeiros resultados da gastroplastia endoscópica feita com um aparelho de sutura começam a aparecer na literatura médica. É ainda cedo para tirar conclusões sobre a eficácia desta técnica.
A DRGE na Internet:
Em português:
A SPED dedica um dossier à azia: Azia
o que é ?,
No Brasil O abcdasaude tem uma página bem feita sobre este assunto:
DOENÇA DO
REFLUXO GASTRO-ESOFÁGICO - DRGE
Em Inglês:
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