EM MATÉRIA de alimentação, dizem os nutricionistas, não existem alimentos
milagrosos nem maus alimentos. Mas existem abusos que se pagam caro, hábitos de
questionável resultado e erros cujas consequências nefastas são indesmentíveis. Se o
potencial de saúde de cada indivíduo se pudesse medir à vista desarmada, a simples
observação dos horários escolhidos para as refeições, a forma de as ingerir e a sua
composição habitual bastariam para determinar quem é e quem não é saudável. É na
diferença entre fazer uma alimentação equilibrada e «comer umas coisas» que reside o
segredo. Porque comer bem - defendem os especialistas - não é sequer complicado. O
truque é escolher um padrão alimentar saudável, área onde o exemplo mediterrânico
marca pontos, com provas dadas e resultados cientificamente comprovados.
As vantagens nutricionais deste modelo remontam ao nascimento da própria cultura
ocidental, pelo que o nutricionista Emílio Peres julga «ser a história o melhor
testemunho do seu bom rendimento intelectual». Aperfeiçoada ao longo de milénios,
até se tornar o tipo de alimentação «propiciador de perfeita saúde de adultos e de
uma velhice sadia, de boa aptidão para trabalho físico, de activa convivencialidade, de
assinalável capacidade criativa e de excelente maturação psico-emocional», o seu
segredo reside na maneira de combinar os alimentos e de os proporcionar. Porque não basta
a inclusão de determinados géneros numa dieta, é preciso atender à maneira como estes
se misturam e confeccionam.
Rico em vegetais, frutos, alimentos cerealíferos, pescado e legumes, e «por não
lhe ser conhecida nenhuma desvantagem», foi a partir deste padrão que nasceram todos
os modelos alimentares a propor. Para Emílio Peres, nutricionista do Porto, não se
trata, sequer, de tentar regressar ao tipo de alimentação tal como referenciado por Keys
nas décadas de 50 e 60: «Ele deve ser a referência, mas com as adaptações que os
tempos modernos exigem.»
No decurso das últimas décadas (toda a gente o sabe), o ritmo e a qualidade das
refeições foram sendo alterados - e prejudicados -, não só pelos ditames profissionais
e emergência de novas realidades sociais nos países mediterrânicos, mas também pela
importação de gostos e hábitos, vindos de países com superior domínio económico e
cultural. Emílio Peres encontra, a par dum movimento que anseia pelo regresso aos
alimentos autênticos e tradicionais, tendências antagónicas «viradas para os
'comeres modernos' e os 'muito urbanos', ao estilo da comida de hotel, onde as natas,
molhos e 'fondues' pretendem impor-se como modelos de sofisticação e requinte».
É pela progressiva implementação do primeiro movimento que lutam os médicos e
especialistas em nutrição. E a adesão ao padrão mediterrânico em países cuja cultura
alimentar nada tinha a ver com o modelo (caso dos EUA, onde os conselhos da classe médica
se aliaram à influência dos emigrantes espanhóis e italianos para ditar a crescente
adesão dos norte-americanos a produtos como o azeite) fá-los estar confiantes.
Em Portugal, segundo o especialista do Porto, cerca de um terço da população
mantém-se fiel à referência mediterrânica. No Alentejo, alto Algarve, na zona costeira
de Mafra a Aveiro e no interior das Beiras e de Trás-os-Montes, ela ainda é seguida. A
restante população, divide-se entre os que comem de acordo com o padrão ocidental - «farto,
bem regado, pobre em farináceos, e seguido de sobremesa doce e gorda» - e os tais
que «comem umas coisas», que fazem refeições desestruturadas em casa, onde chegaram as
«pizzas» pré-cozinhadas e outros congelados, além dos alimentos se misturarem
aleatoriamente, «sem ter em conta o seu valor ou equilíbrio nutricional».
Soluções? O aparecimento de restaurantes onde é exclusiva a comida mediterrânica (o
que já acontece na Catalunha ou em Valência). Sendo esta o motivo assumido para a
promoção da casa, pode transformar-se num contributo importante. Tal como é importante
uma educação para o consumidor, que Emílio Peres gostaria de ver contemplada nas
escolas, para que os futuros compradores aprendam a reconhecer e a distinguir, de entre a
diversidade enorme de marcas, os melhores produtos e os alimentos de maior valor
nutritivo.
Reunidos em Roma, em 1997, os especialistas da Comunidade Europeia concluíram ainda
que a alimentação mediterrânica não só promove saúde - sendo eficaz na prevenção
das doenças metabólicas e degenerativas crónicas actualmente mais graves e mais
frequentes -, como se pode considerar terapêutica, pela possibilidade de modificar o
curso da doença, em pessoas que alterem os seus hábitos alimentares após lhe serem
diagnosticadas certas maleitas. Foi com base nesta conclusão que aprovaram uma série de
recomendações no sentido desta dieta ser recuperada, estimulada em sítios onde tenda a
ser abandonada e até difundida noutras zonas.
A ideia fundamental a reter é que nunca é tarde para aderir a padrões mais
saudáveis de alimentação. De preferência já a partir da próxima refeição.
Texto de MAFALDA GANHÃO