DOENÇAS DO APARELHO DIGESTIVO

 

 

REVISTA EXPRESSO 15-5-1999

Segredo da alimentação

EM MATÉRIA de alimentação, dizem os nutricionistas, não existem alimentos milagrosos nem maus alimentos. Mas existem abusos que se pagam caro, hábitos de questionável resultado e erros cujas consequências nefastas são indesmentíveis. Se o potencial de saúde de cada indivíduo se pudesse medir à vista desarmada, a simples observação dos horários escolhidos para as refeições, a forma de as ingerir e a sua composição habitual bastariam para determinar quem é e quem não é saudável. É na diferença entre fazer uma alimentação equilibrada e «comer umas coisas» que reside o segredo. Porque comer bem - defendem os especialistas - não é sequer complicado. O truque é escolher um padrão alimentar saudável, área onde o exemplo mediterrânico marca pontos, com provas dadas e resultados cientificamente comprovados.

As vantagens nutricionais deste modelo remontam ao nascimento da própria cultura ocidental, pelo que o nutricionista Emílio Peres julga «ser a história o melhor testemunho do seu bom rendimento intelectual». Aperfeiçoada ao longo de milénios, até se tornar o tipo de alimentação «propiciador de perfeita saúde de adultos e de uma velhice sadia, de boa aptidão para trabalho físico, de activa convivencialidade, de assinalável capacidade criativa e de excelente maturação psico-emocional», o seu segredo reside na maneira de combinar os alimentos e de os proporcionar. Porque não basta a inclusão de determinados géneros numa dieta, é preciso atender à maneira como estes se misturam e confeccionam.

Rico em vegetais, frutos, alimentos cerealíferos, pescado e legumes, e «por não lhe ser conhecida nenhuma desvantagem», foi a partir deste padrão que nasceram todos os modelos alimentares a propor. Para Emílio Peres, nutricionista do Porto, não se trata, sequer, de tentar regressar ao tipo de alimentação tal como referenciado por Keys nas décadas de 50 e 60: «Ele deve ser a referência, mas com as adaptações que os tempos modernos exigem.»

No decurso das últimas décadas (toda a gente o sabe), o ritmo e a qualidade das refeições foram sendo alterados - e prejudicados -, não só pelos ditames profissionais e emergência de novas realidades sociais nos países mediterrânicos, mas também pela importação de gostos e hábitos, vindos de países com superior domínio económico e cultural. Emílio Peres encontra, a par dum movimento que anseia pelo regresso aos alimentos autênticos e tradicionais, tendências antagónicas «viradas para os 'comeres modernos' e os 'muito urbanos', ao estilo da comida de hotel, onde as natas, molhos e 'fondues' pretendem impor-se como modelos de sofisticação e requinte».

É pela progressiva implementação do primeiro movimento que lutam os médicos e especialistas em nutrição. E a adesão ao padrão mediterrânico em países cuja cultura alimentar nada tinha a ver com o modelo (caso dos EUA, onde os conselhos da classe médica se aliaram à influência dos emigrantes espanhóis e italianos para ditar a crescente adesão dos norte-americanos a produtos como o azeite) fá-los estar confiantes.

Em Portugal, segundo o especialista do Porto, cerca de um terço da população mantém-se fiel à referência mediterrânica. No Alentejo, alto Algarve, na zona costeira de Mafra a Aveiro e no interior das Beiras e de Trás-os-Montes, ela ainda é seguida. A restante população, divide-se entre os que comem de acordo com o padrão ocidental - «farto, bem regado, pobre em farináceos, e seguido de sobremesa doce e gorda» - e os tais que «comem umas coisas», que fazem refeições desestruturadas em casa, onde chegaram as «pizzas» pré-cozinhadas e outros congelados, além dos alimentos se misturarem aleatoriamente, «sem ter em conta o seu valor ou equilíbrio nutricional».

Soluções? O aparecimento de restaurantes onde é exclusiva a comida mediterrânica (o que já acontece na Catalunha ou em Valência). Sendo esta o motivo assumido para a promoção da casa, pode transformar-se num contributo importante. Tal como é importante uma educação para o consumidor, que Emílio Peres gostaria de ver contemplada nas escolas, para que os futuros compradores aprendam a reconhecer e a distinguir, de entre a diversidade enorme de marcas, os melhores produtos e os alimentos de maior valor nutritivo.

Reunidos em Roma, em 1997, os especialistas da Comunidade Europeia concluíram ainda que a alimentação mediterrânica não só promove saúde - sendo eficaz na prevenção das doenças metabólicas e degenerativas crónicas actualmente mais graves e mais frequentes -, como se pode considerar terapêutica, pela possibilidade de modificar o curso da doença, em pessoas que alterem os seus hábitos alimentares após lhe serem diagnosticadas certas maleitas. Foi com base nesta conclusão que aprovaram uma série de recomendações no sentido desta dieta ser recuperada, estimulada em sítios onde tenda a ser abandonada e até difundida noutras zonas.

A ideia fundamental a reter é que nunca é tarde para aderir a padrões mais saudáveis de alimentação. De preferência já a partir da próxima refeição.

Texto de MAFALDA GANHÃO

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Conselho de mestre

  Carlos Carvalheira
e-mail: c.carvalheira@gastroalgarve.pt
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