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   DOENÇAS FUNCIONAIS DO TUBO DIGESTIVO

    Embora representem mais de 40% dos doentes com problemas do Tubo Digestivo e sejam responsáveis por limitações da actividade diária em cerca de 25% da população, segundo as estatísticas dos EUA, as Doenças Funcionais do Tubo Digestivo permanecem desconhecidas da maior parte da população.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa atribui à palavra funcional o seguinte sentido médico: "que afecta funções fisiológicas ou psicológicas mas não a estrutura orgânica." "sem causa orgânica perceptível (diz-se de distúrbios funcionais)".

 O que são as Doenças Funcionais do Tubo Digestivo ?

     São um grupo de afecções crónicas, recorrentes, nas quais não são detectadas alterações orgânicas nem bioquímicas que as expliquem. Este conceito difundiu-se sobretudo depois de 1988 em consequência de um encontro, de gastrenterologistas de vários países, em Roma, que individualizaram um grupo de afecções e criaram normas para o seu diagnóstico que, ficaram conhecidas por CRITÉRIOS DE ROMA. 
     O conceito prévio, pretendia explicar todos os sintomas por uma alteração estrutural, orgânica, que se demonstrava através dum método de imagem, radiológico, endoscópico ou por métodos anatmopatológicos  ou laboratoriais. Este redutor conceito orgânico, mostrou-se insuficiente para explicar as queixas da maior parte dos doentes que consultavam o médico com queixas do Aparelho digestivo.
     Estes doentes rotulados de " doentes dos nervos" ou que tinham "doenças fruto da sua imaginação" têm afinal alterações do ponto de vista biológico, psicológico e sociológico que ainda conhecemos muito mal e que se traduzem em má digestão, dor do estômago, dor abdominal, dor anal, alterações do transito intestinal etc.
    Os avanços, no melhor conhecimento dos mecanismos fisiopatológicos, fazem sobressair as alterações motoras, o aumento da sensibilidade visceral, a desregulação das ligações do Sistema Nervoso Central com o Tubo Digestivo em que influências psicológicas, sociais, culturais etc. podem modular a percepção dos sintomas.

    No dizer dum perito americano - Douglas Drossman -  " Os esforços para encontrar uma etiologia morfológica ou mesmo uma alteração da motilidade nas afecção funcionais do Aparelho Digestivo na última metade do século XX foram infrutíferas e, a convicção de que estas alterações funcionais deviam ser psiquiátricas generalizou-se. No entanto, as pesquisas científicas recentes modificaram seriamente esta maneira de pensar. Os estudos provaram que as pessoas com síndrome do intestino irritável que não procuram cuidados médicos são indivíduos psicologicamente normais"

    

Bio:
  • Virus

  • Bactérias

  • Lesões

Psico:
  • Comportamento

  • Crenças

  • Confronto

  • Stress

  • Dor

Social:
  • Classe

  • Emprego

  • Etnia

 O novo conceito -1977- de modelo Biopsicossocial de George Engel e a sua posterior demonstração, especificamente para as alterações gastrointestinais, modificaram o pensamento até então generalizado. Hoje sabemos que factores psicológicos, sociais e biológicos intervêm não só no aparecimento da doença, mas também na sua recuperação e na promoção da saúde. É certo que os factores psicológicos podem ser importantes na etiopatogenia das doenças funcionais, mas não definem a doença, nem são essenciais para o diagnóstico.

 

     Muito falta esclarecer em relação aos mecanismos que levam ao aparecimento destas afecções mas, sabemos que são situações benignas, que não evoluem para nenhuma doença grave e que, um grande número de casos, acabam por evoluir para a cura. Embora não conheçamos um tratamento curativo é possível obter alívio dos sintomas com os fármacos actuais. A procura de novos fármacos pela industria farmacêutica, para o tratamento de afecções tão frequentes é , como podemos imaginar, enorme. Mas, mais importante do que qualquer medicamento é a explicação dada pelo nosso médico, é o tempo que ele gasta em nos elucidar sobre a evolução da nossa afecção em nos sossegar sobre o seu prognóstico.

    CLASSIFICAÇÃO DAS DOENÇAS FUNCIONAIS

     A reunião de peritos em Roma em 1988 foi um marco importante na sistematização destas afecções e permitiu um aumento enorme de estudos nesta área do conhecimento. A sistematização foi aperfeiçoada na segunda reunião 1998 - Roma II - e novamente em 2006 -Roma III. É esta classificação de Roma III que se segue:

 A – ALTERAÇÔES FUNCIONAIS DE ESÓFAGO

           A1 - Pirose Funcional ( tem que haver evidência de que não existe refluxo)
                A2 - Dor Torácica Funcional de presumível origem esofágica
                A3 - Disfagia Funcional
                A4 - Globus

  B – ALTERAÇÕES FUNCIONAIS GASTRODUODENAIS

           B1- Dispepsia Funcional  ( representa mais de 50% dos doentes com queixas dispépticas )
                               B1a – Síndrome do Desconforto Pós-prandial
                               B1b – Síndrome da Dor Epigástrica
                B2 – Eructação -  (só deve ser considerada alteração quando se torne desagradável)
                               B2a – Aerofagia
                               B2b –  Eructação excessiva
                B3 – Náusea e vómito
                               B3a – Náusea Crónica Idiopática
                               B3b – Vómito Funcional
                               B3c – Síndrome do Vómito Cíclico (menos de 1 semana de duração – 3 ou mais episódios no ano anterior)
                B4 – Síndrome da Ruminação (situação muito rara no adulto)

  C – ALTERAÇÔES FUNCIONAIS DO INTESTINO

           C1 – Síndrome do Intestino Irritável(afecção mais frequente do Aparelho Digestivo)
                C2 – Distensão Abdominal
                C3 – Obstipação Funcional
                C4 – Diarreia Funcional
                C5 – Alteração Funcional não Especificada

  D – SÍNDROME DA DOR ABDOMINAL FUNCIONAL (na maior parte dos casos a dor abdominal faz parte da Dispepsia Funcional ou do Síndrome do Intestino Irritável. Em 0.5% a 2% dos casos a dor aparece isolada sem poder ser enquadrada noutro síndrome)

  E – ALTERAÇÕES FUNCIONAIS DA VESÍCULA E ESFINCTER DO ODDI

           E1 – Alteração Funcional da Vesícula (situação pouco frequente e de difícil diagnóstico)
                E2 – Alteração Funcional do Esfíncter de Oddi da Via Biliar
                E3 – Alteração Funcional do Esfíncter de Oddi do Pâncreas

F – ALTERAÇÕES FUNCIONAIS ANORECTAIS

           F1 – Incontinência Fecal Funcional
                F2 – Dor Anorectal Funcional
                               F2a – Proctalgia Crónica (o episódio doloroso dura pelo menos 20 minutos)
                                               F2a1 – Síndrome do Elevador do Ânus
                                               F2a2 – Dor Anorectal Funcional Não Especificada
                               F2b – Proctalgia Fugax (o episódio doloroso dura segundos ou minutos. Afecta cerca de 5% da população adulta)
                F3 – Alterações Funcionais da Defecação
                               F3a – Defecação Dissinérgica
                               F3b – Propulção Defecacatória Inadequada

Doenças Funcionais na Internet:

International Foundation for Functional Gastrointestinal Disorders (IFFGD), com vídeo naYOU TUBE

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Carlos Carvalheira
c.carvalheira@sapo.pt